Ética na Cozinha

Tem uma coisa muito importante que vocês precisam saber sobre os cozinheiros: eles tem egos maiores que qualquer outra profissão. Advogados? Médicos? Pós-doutores que usam três citações em francês a cada frase? Pff, nada, não chegam nem perto. Esse monte de egos transforma o debate de ética no setor criativo da cozinha um pouco complicado, pois o que seria roubar o prato do outro? Existe propriedade intelectual a ser roubada dentro da cozinha?
Existe, claro. De acordo com a queridíssima Jo Shaw, professora de direito internacional da Universidade de Edimburgo, receitas são patenteáveis e, mesmo que não sejam, podem levar a casos de indenização por conta da propriedade intelectual, sim. Como foi o caso da maionese vegana da Hampton Creek em 2012 – a Hellman’s primeiro entrou com uma ação de danos morais, e quando perdeu entrou com uma outra para que o produto nunca entrasse no mercado com o nome de maionese, já que maionese tinha que levar ovo ou leite. Nem precisa explicar que eles perderam essa ação também.
Mas fora esses pratos ou ingredientes extremamente específicos e esses gigantes da indústria alimentícia, ninguém patenteia nada. Mas todo mundo fala que foi o primeiro que fez. Já escutei um cozinheiro por aí dizendo que inventou abacaxi assado com sorvete. Já escutei pessoas acusando chefs de roubarem receitas de peixe com purê, quando deve haver bem umas oitenta mil combinações feitas em todos os quatro cantos do mundo – pessoas diferentes podem chegar em pratos iguais, sim.
Essas acusações obviamente não tem pé nem cabeça. Mas, se por acaso, você faz um prato igualzinho a um restaurante famoso, mesmos ingredientes, mesma montagem na frente de milhões de pessoas e não diz claramente que é uma reprodução, eu acho que é a hora de levantar uma bandeirinha vermelha da ética.
Pode estar tudo bem entre a Michelle do Masterchef e a chef Bel Coelho? Pode, Michelle falou publicamente que a receita era da Bel e a Bel agradeceu e está tudo em paz. Mas com toda esse furdunço veio o tema da ética – tão delicado e mal resolvido na cozinha.
O que falta é muita maturidade para entender o que é uma inspiração e o que é uma reprodução. Nem tudo que precisa sair de uma cozinha tem que ser original. Aprenda reproduzindo os outros, sim! Não tem como treinar novas técnicas de outra forma. Mas tenha coragem de colocar sua própria essência na comida e deixe a inspiração vir da cor de um prato, da montagem, do gosto, do seu dia a dia, da sua memória, daquele gosto de bolo de mel depois do picadinho de domingo, de tudo aquilo que for unicamente seu.

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